sexta-feira, 6 de setembro de 2019

CAMINHABILIDADE

Pesquisa sobre caminhar em São Paulo revela como políticas para priorizar o deslocamento a pé devem pensar em proximidade

por Leticia Sabino

Em 15 minutos de caminhada da sua casa o que você acessa? É possível fazer compras? Ir a um serviço médico? Chegar a um equipamento cultural? Alcançar instituições de educação? Sentar em uma praça ou parque?
A proximidade a pé é um dos elementos que melhoram a caminhabilidade da cidade e por consequência amplia oportunidades e deslocamentos a pé. Se as calçadas e travessias das cidades fossem todas de qualidade e seguras o que seria acessível a pé?

Onde pisamos

Comumente quando autoridades querem mostrar que estão fazendo algo pelos pedestres logo anunciam reformas de calçadas. Em São Paulo, por exemplo, o Programa de Metas de 2019-2020 definiu como uma das ações “construir e recuperar 1.500.000 m² de calçadas promovendo a qualidade, acessibilidade e segurança”. Vale ressaltar que o mesmo documento declara que a cidade tem aproximadamente 68.000.000 m² de calçadas. Sendo assim, a meta, uma das mais ousadas de reforma desta estrutura nos últimos anos, contempla apenas cerca de 2% das calçadas da cidade.
Reformar calçadas é muito importante, mas mais do que melhorias pontuais no espaço de caminhar propostas por cada gestão é necessário estabelecer mecanismos que garantam que o investimento em calçadas de qualidade seja sistemático e constante. Isso pode se dar, por exemplo, ao estabelecer que toda obra de manutenção de edifícios públicos também contemple as calçadas; ao criar fundos com dinheiro de multas de calçadas, de trânsito entre outras, para que sejam revertidos para a infraestrutura de mobilidade a pé; entre outras iniciativas. Algumas delas já definidas em lei pelo Estatuto do Pedestre de São Paulo sancionado em 2017, mas ainda sem regulamentação do executivo.
Mas calçadas a parte, o comprometimento e a elaboração de políticas para a promoção de cidades caminháveis exige olhares e ações bastante mais complexas para o ambiente urbano, de forma a integrar uso do solo, moradia, áreas verdes, oferta cultural, saúde, entre outras perspectivas. Por isso, deve ser absorvida pelo planejamento, políticas e ações de diversas secretarias de forma transversal.

Caminhabilidade

A caminhabilidade é um termo traduzido do inglês, walkability, que define a qualidade do ambiente para o deslocamento a pé, não só por atributos técnicos das ruas. É uma forma de medir a possibilidade, segurança e agradabilidade de caminhar na escala das ruas, bairros ou cidades. Não existe uma forma única de medir, mas existem alguns elementos básicos que sempre devem ser considerados na sua avaliação.
O urbanista americano Jeff Speck em seu livro Cidade Caminhável aponta 4 elementos essenciais da caminhabilidade: utilidade – no sentido de ter equipamentos, comércio e outras facilidades possíveis de acessar a distâncias a pé; segurança – que haja a garantia de caminhar sem risco de quedas, atropelamentos e até mesmo assaltos e assédio; conforto – que os caminhos tenham espaços de parada, de sombra, entre outros elementos que garantem uma experiência cômoda; e interesse – que o trajeto proporcione às pessoas o que ver, interagir e se conectar.

Para onde vamos: está longe e está perto

Em pesquisa inédita, “Viver em São Paulo: Pedestre”, divulgada durante a Semana do Caminhar 2019 – realizada pelo Ibope e Rede Nossa São Paulo com colaboração das organizações SampaPé!, Cidade a pé, Cidade Ativa, Corrida Amiga e Pé de Igualdade – revelou-se a perspectiva da “utilidade” na análise da caminhabilidade na cidade – algo que nunca antes havia sido explorado.
Para explorar a utilidade da caminhada na cidade a pesquisa perguntou o que as pessoas conseguem acessar à 15 minutos a pé de suas casas e para onde vão exclusivamente a pé. Tendo como alternativas desde comércio, como padarias, mercado, farmácia; equipamentos, como delegacia, posto de saúde e espaços culturais; trabalho e estudo; até acesso à outros transportes de massa, como estação de trem e metrô ou ponto de ônibus.
Ao contrário da “máxima” que paulistanos e paulistanas pegam carro até para ir à padaria, quando se questionou “Considerando seu dia a dia, para que lugares você costuma ir exclusivamente a pé, ou seja, sem utilizar qualquer outro meio de locomoção?” a resposta de 64% das pessoas entrevistadas foi justamente a padaria, sendo o local mais acessado a pé na cidade. Isso se dá pela proximidade deste tipo de comércio às casas. Quando perguntadas sobre o que está no raio de 15 minutos a pé de suas casas através da pergunta “Independente de andar ou não exclusivamente a pé, quais lugares você consegue chegar em uma caminhada de até 15 minutos da sua casa?” a padaria mais uma vez foi a campeã estando a até 15 minutos de caminhada da residência de 67% das pessoas. O mesmo acontece com mercado/feira e farmácia, que seguem o ranking pela pesquisa.
Infelizmente, os equipamentos de saúde e cultura não são tão pulverizados e distribuídos na cidade como os comércios mencionados. Segundo a pesquisa, apenas ⅓ dos moradores da cidade vive a 15 minutos de caminhada de algum serviço médico – ou seja metade do acesso a padarias. Ainda ao segregar por classe, enquanto nas classes A/B este número sobe para 42% das pessoas, nas classes D/E o acesso cai para 26% – ainda que neste grupo 34% afirme que acessa esses serviços a pé. O acesso à espaços culturais a pé é ainda mais um privilégio de poucos, apenas 8% das pessoas afirmaram viver a menos de 15 minutos a pé de algum equipamento cultural. Ao territorializar este dado, a discrepância é enorme, enquanto no centro o acesso sobe para quase metade das pessoas, 45%, na Zona Norte chega apenas a 2%. Não à toa, no centro, 37% das pessoas afirmou ir a pé no dia a dia a espaços culturais enquanto a média nas outras regiões da cidade é de apenas 7%, o que evidencia que muitas pessoas caminham mais que 15 minutos nos seus bairros para acessarem equipamentos de cultura.

Vias de muitas mãos

Estes dados ajudam ao entendimento da importância da caminhabilidade para diminuir as desigualdades, ampliar os acessos e despertar outras áreas sobre a importância de atuar na garantia do acesso a pé e das condições do caminho. Para promover cidades verdadeiramente caminháveis além de ter pavimento e estruturas que garantam a segurança e o conforto, é preciso que se tenha o que acessar a pé. Continua sendo necessária atuação focada nas ruas, calçadas e estruturas de deslocamento, mas sem proximidade não haverá caminhabilidade e justiça.

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

ARQUITETURA E NATUREZA

Indio da Costa: ‘A arquitetura deve ser muito cuidadosa para não competir com a natureza’

Luiz Eduardo Indio da Costa. Foto: Maia Rubim/Sul21
Renata Cardoso
Em palestra na noite desta quinta-feira (29), Luiz Eduardo Indio da Costa, arquiteto brasileiro responsável por projetar a revitalização da orla de Copacabana para as Olimpíadas de 2016, o VLT do Rio de Janeiro e tantas outras construções que se integram e dão forma à cidade Maravilhosa, falou de seus mais recentes e icônicos trabalhos.
O arquiteto foi autor da Palestra Magna do 6º Seminário de Exercício Profissional, promovido pelo Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU/RS) para pensar os desafios e o futuro da profissão. O evento começou na quinta-feira e se encerra nesta sexta no Centro Histórico-Cultural da Santa Casa, em Porto Alegre.
Para uma plateia formada majoritariamente por colegas de profissão, Indio da Costa discorreu sobre os desafios, a necessidade e as dificuldades de se reinventar a cada trabalho, e como enxerga alguns aspectos da Arquitetura e do Urbanismo. Após mais de 50 anos de carreira, ele, que já recebeu inúmeros prêmios nacionais e internacionais, como a Comenda Niemeyer do Instituto de Arquitetos do Brasil, concedida a “personalidades que tenham produzido ou contribuído para a produção da melhor Arquitetura no País”, confessou que faz um esforço quase diário para se “ver livre de toda essa bagagem”. “Claro que a bagagem me ajuda, mas o mundo está em constante mudança. Acho que todos nós temos que nos reinventar todos os dias”, afirmou.
Autor da Palestra Magna no seminário promovido pelo CAU/RS. Foto: Maia Rubim/Sul21
Com leveza, o arquiteto mescla obras de arte à arquitetura e acredita no dinamismo profissional, que os espaços devem ser funcionais, adaptáveis e evolutivos, além de integrados à natureza. “O Rio de Janeiro tem uma coisa fantástica na natureza. É uma paisagem tão forte que às vezes a gente fica até intimidado de entrar com a arquitetura”.
Após tanto tempo de estrada, os desafios ainda são o que estimulam o profissional. “O interessante é a gente fazer quando é difícil. Quando é fácil, não tem graça. Quando eu termino um projeto eu quero começar outro do zero, por isso, não tenho uma linguagem única. Eu me sinto muito mais desafiado fazendo assim. O mercado imobiliário é uma camisa de força”, afirmou. Questionado sobre a vontade dos clientes ou os impedimentos para a realização de alguma demanda, ele enfatiza que é preciso transformar o projeto no melhor que ele pode ser. “A gente não pode ficar esperando o projeto maravilhoso cair do céu”, salientou.
“As cidades são a mais diabólica experiência do Homo Sapiens”
Para o arquiteto, vai ser cada vez mais complicado gerir as cidades. Porém, ainda há muito o que avançar no urbanismo, “e as novas gerações serão responsáveis por isso”, acredita Indio da Costa, que trabalha com uma equipe multidisciplinar para lidar com os diferentes aspectos de cada projeto, o que, de acordo com ele, enriquece o trabalho, pois cria debates e discussões com diferentes pontos de vista.
Em sua fala, o arquiteto citou ainda as smart cidades e os smart bairros e as demandas cada vez maiores por incorporar a tecnologia no mobiliário urbano. Ao finalizar sua palestra sobre o futuro da profissão e do país, ele é categórico: “A grande solução, o grande caminho para o futuro é a educação”, afirmou.
Revitalização da Orla de Copacabana para os Olimpíadas está entre os projetos de Indio da Costa. Foto: Maia Rubim/Sul21
Confira a entrevista completa:
Qual a importância da integração e o respeito entre a arquitetura e a paisagem natural das cidades? Qual a importância da sustentabilidade nessa integração?
Eu venho do Rio de Janeiro, um local onde a presença da natureza é fortíssima.  A beleza da cidade se deve muito mais à natureza do que ao nosso trabalho como arquitetos e urbanistas. Há cidades cuja natureza e a topografia não têm graça nenhuma. Como Paris, por exemplo, que se torna maravilhosa pela construção do homem. No Rio a construção da natureza é muito mais forte, e isso facilita e complica ao mesmo tempo o trabalho dos arquitetos. A arquitetura deve ser muito cuidadosa para não competir com a natureza, mas sim se integrar a ela. Às vezes, em determinados locais, a natureza é tão bonita que dá até pena de fazer uma interferência arquitetônica.
Estamos muito atentos à sustentabilidade. Já conseguimos entender que os recursos naturais são finitos, e que a gente não pode infinitamente consumir isso. Nós tivemos uma sensação linear de começo, meio e fim. De que você come, digere e depois expele as sobras, mas eu acho que agora nós estamos adquirindo uma consciência de que isso não tem que ser uma linha, mas sim um círculo que se autoalimenta para fazer uma sociedade mais equilibrada do ponto de vista econômico e social.
O senhor acompanhou muitas transformações na área ao longo da sua carreia? Quais fatos o senhor considera mais marcantes e ou que trouxeram novos paradigmas na arquitetura nacional?
Eu tenho a sensação de que eu me formei em outra vida, por que a mudança foi tão grande e violenta. Hoje a gente trabalha com projetos em 3D, um mundo completamente diferente de quando eu comecei. Essa evolução é extremamente positiva. Eu acho que hoje a gente consegue projetos muito mais interessantes, melhores e mais estruturados do que na minha época, quando fazíamos projetos complementares com uma grande dificuldade.  Hoje você consegue, por meio da tecnologia, prever os possíveis problemas da edificação e assim resolvê-los ainda na prancheta.
‘O grande desafio é crescer com ética’. Foto: Maia Rubim/Sul21
Como o senhor vê a relação entre a tecnologia e o processo criativo em um projeto arquitetônico?
Eu acho que o processo criativo mais facilmente se materializa com a tecnologia, mas não que ele aumente a criatividade. Hoje se tem um instrumental muito melhor que potencializa a criatividade. Quando a gente não tinha meios de viabilizar a criatividade não se podia fazer muita coisa. Hoje você tem métodos construtivos absolutamente inovadores, você pode construir uma casa em impressora 3D. Esse tipo de coisa vai mudar todo o jeito de projetar.
Quais são os principais desafios para arquitetos e urbanistas atualmente?
Eu acho que os desafios são muito grandes. Eu não saberia exatamente classificar isso, mas eu acho que o grande desafio é crescer com ética, respeitando o meio ambiente. Hoje a gente tem um mundo ameaçado pelo esgotamento. O desafio para a arquitetura eu acho que é esse: fazer de modo sustentável, mais correto e mais preocupado com a preservação e o futuro.

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

GABARITO DA ATIVIDADE AVALIATIVA 1 2/2019

ATIVIDADE 1 – Degradação e riscos socioambientais

1.    Como a degradação ambiental se associa à degradação social?
As áreas mais degradadas do meio ambiente são geralmente ocupadas pela população socialmente degradada, pobre, desempregada e de baixa escolaridade, carente de recursos para uma vida em meio ambiente saudável. De um lado, essa população ocupa áreas de maior risco ambiental, sujeitas a desabamentos, inundações, poluição do solo, do ar e da água, ou contaminada por resíduos, carentes de infraestrutura urbana que dê condições de habitabilidade; de outro, esses indivíduos socialmente degradados são também responsáveis por intensificar a degradação ambiental, por falta de educação ambiental.

2.    Explique: “O ambiente urbano potencializa o risco de desastres ambientais, que afetam com mais intensidade os pobres.”
O ambiente urbano, ao atrair e concentrar pessoas, produz uma segregação socioespacial em que a população com maior poder aquisitivo ocupará as áreas ambientalmente mais seguras e comercialmente mais valorizadas. A população mais pobre é geralmente levada a ocupar áreas de riscos ambientais, onde o solo é pouco valorizado ou simplesmente onde ninguém quer morar. São encostas íngremes de morros, fundos de vales, proximidade com fontes poluidoras ou mesmo solos contaminados por produtos químicos. Desta maneira, os riscos de desastres ambientais são potencialmente maiores para os mais pobres.

3.    Explique: O ambiente urbano cria oportunidades que melhoram a capacidade de resposta de indivíduos e grupos sociais aos riscos.
Os indivíduos são atraídos para o ambiente urbano em função das oportunidades ali existentes para sua sobrevivência e realização social. Essas oportunidades oferecem novos recursos, como educação e saúde pública gratuitos, creches, serviços de infraestrutura urbana e oferta de empregos e negócios, por exemplo, que fortalecem os indivíduos e grupos sociais no enfrentamento de riscos. Entretanto, o acesso às oportunidades é muito desigual, e é ele que vai definir a capacidade de enfrentamento dos riscos.

4.    Explique: “O padrão de consumo e geração de rejeitos da população urbana pode requerer e impactar uma quantidade de recursos naturais que extrapola em muito a área ocupada por ela.”

A concentração de população humana em cidades diminui drasticamente a superfície de espaço natural requerida para a ocupação de um mesmo número de pessoas de forma dispersa no território. Entretanto, o padrão de consumo da população é muito mais elevado na zona urbana (energia, alimentos, recursos naturais), assim como é também maior o descarte de rejeitos. Em vista disso, a maior parte desses recursos virá de fora da zona urbana, e ela também descartará fora os seus rejeitos. Assim, seus impactos alcançarão áreas muito maiores do que a ocupada pela população urbana.

5.    Quais são as características da degradação ambiental nos países em desenvolvimento?
Os chamados países em desenvolvimento são caracterizados por maior taxa de crescimento populacional, acelerada taxa de urbanização, grandes desigualdades sociais, elevados graus de pobreza, aumento no padrão de consumo e precariedade de infraestrutura urbana. Todas essas características, decorrentes do crescimento desordenado e socialmente desigual, são fatores que acentuam a degradação ambiental. Portanto, as características da degradação ambiental serão sua associação à pobreza, poluição e contaminação de áreas periféricas das cidades, onde reside a população pobre; ao mesmo tempo, o aumento no padrão de consumo gera maior carga poluidora, que muitas vezes é descartada a céu aberto no meio ambiente.

GABARITO DA ATIVIDADE AVALIATIVA 5 - 2/2019


Atividade Avaliativa 5 – O ambientalismo e suas correntes
LEIA O TEXTO E RESPONDA AS QUESTÕES

Os países do Terceiro Mundo vêm pautando suas estratégias de conservação da natureza na criação de áreas naturais protegidas, como parques e reservas, dentro de um enfoque de proteção à vida selvagem, entendendo que a natureza se encontra ameaçada pela sociedade urbano-industrial, capaz de provocar a sua destruição. Esta concepção se baseia em ideias preservacionistas do início do século XIX, surgidas nos Estados Unidos, tendo propiciado a criação do primeiro parque nacional do mundo, o de Yellowstone, em meados daquele século, quando a urbanização já se encontrava em fase acelerada no país, propondo-se, então, a reserva de grandes áreas naturais, que passariam a ser destinadas à recreação das populações urbanas.
A base ideológica do início do conservacionismo norte-americano entendia o parque como área selvagem, desabitada, como um “paraíso terrestre” perdido. O ambiente fabril, desagradável, das cidades do início da revolução industrial, teria forjado uma atitude contemplativa da natureza, principalmente em relação ao mar, às praias isoladas e ilhas, enquanto representação da natureza selvagem, o que veio influenciar a ideia da criação de áreas protegidas, como verdadeiras “ilhas” de natureza intocada. A ação norte-americana de criar parques para garantir a perpetuidade de seus recursos naturais teve reflexos concretos em outros países. No Brasil, amostras do ambiente natural passaram a ser protegidas através de Parques Nacionais, com o objetivo de se preservar paisagens naturais segundo o seu valor cênico.
A corrente preservacionista assegurou bases importantes para o movimento ambientalista dos anos 60 e 70, oferecendo-se como ideologia para o movimento conservacionista americano, materializando-se em parques nacionais como a única forma de se salvar partes da natureza – possuidoras de efeito estético/ecológico – do desenvolvimento urbano-industrial.
A implementação da ideia pelos países do Terceiro Mundo teve efeitos devastadores sobre as populações tradicionais, uma vez que o modelo de áreas protegidas pressupõe parque sem moradores – o que nem sempre acontece nesses países, nos quais, partes das florestas, muitas vezes, são habitadas, o que vem provocando graves conflitos fundiários, configurando o que definem como “crise da conservação”. Arruda considera que o modelo de parques e áreas de preservação supõe uma dicotomia conflitante entre ser humano e natureza. Em sua crítica ao modelo de unidades de conservação no Terceiro Mundo, sumariza um conjunto de consequências indesejáveis, tais como: um agravamento da má qualidade das condições de vida em muitas comunidades; processos de expulsão de populações locais que se deslocam para as periferias das cidades, redundando na proliferação de favelas e aumento da miséria; maior degradação ambiental, através de práticas clandestinas de exploração de recursos naturais; crescimento do conflito rural; pressões de grupos econômicos forçando o descumprimento da legislação.
Para setores do ambientalismo do Terceiro Mundo, associados a movimentos sociais que lutam pelo acesso aos recursos naturais por parte das populações tradicionais, a crise ambiental está associada à crise do modelo de desenvolvimento, à miséria e à degradação ambiental. Esse “ecologismo camponês” critica o ambientalismo proveniente de países industrializados, que não inclui as questões da pobreza e da má distribuição de renda na relação homem/natureza.
Na abordagem mais usual, a análise pauta-se na relação do tema ambiental com a problemática do desenvolvimento, surgindo o conceito de “desenvolvimento sustentado”, cabendo à ONU o papel de autoridade máxima no que tange às questões ambientais.
No início dos anos 70, começaram a surgir documentos oficiais, expressando uma preocupação com a insustentabilidade do desenvolvimento planetário nos moldes seguidos pelos países desenvolvidos - uma vez que a manutenção da vida depende da estabilidade dos sistemas naturais, entendem-se como necessárias, medidas de contenção do crescimento global. Em decorrência disso, com o objetivo de examinar os problemas críticos do meio ambiente e desenvolvimento, foi criado o PNUMA – Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, o Programa Observatório da Terra (Eartwatch) – monitorando as diversas formas de poluição – e a CMMAD – Comissão Mundial para o Meio Ambiente e Desenvolvimento, gerando o Relatório Brundtland ou “Nosso Futuro Comum”, enumerando sucessos e fracassos do desenvolvimento mundial. Entre os aspectos positivos, constatou-se: expectativa de vida crescente, mortalidade infantil decrescente, maior grau de alfabetização, inovações técnicas e científicas, aumento da produção de alimentos em relação ao crescimento populacional. Por outro lado, foram detectados pontos negativos, tais como: o aumento da erosão do solo e a expansão áreas desérticas, desaparecimento de florestas, poluição do ar crescente ameaçando a camada de ozônio, fracasso nos programas de desenvolvimento, aumento de toxidade de resíduos produzidos pela indústria e agricultura nas cadeias alimentares e áreas de mananciais.
Com base na análise comparativa entre a situação do mundo no início do século XX e na década de 80, o Relatório concluiu que atividades antrópicas alteraram a atmosfera, o solo, a fauna e a flora. Foi então lançada a fundamentação filosófica e científica para as discussões acerca de Desenvolvimento Sustentado, materializadas em propostas políticas, que vieram a ser debatidas em junho de 1992, durante a Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e Desenvolvimento, conhecida como Rio/92 ou ECO/92, introduzindo os conceitos de “desenvolvimento sustentável” e “nova ordem econômica internacional”. As estratégias de reversão dos processos de degradação ambiental propostas foram então documentadas através da Agenda 21.
Pela definição constante no Relatório, o “desenvolvimento sustentável” é colocado como aquele que 
[ ] “atende às necessidades do presente sem comprometer a capacidade de as futuras gerações atenderem as suas próprias necessidades” (CMMAD, 1988, p.9);
[ ] “é um processo de transformação no qual a exploração dos recursos , as diretrizes de investimento, a orientação do desenvolvimento tecnológico e as mudanças institucionais sejam consistentes com as necessidades atuais e futuras”. (CMMAD, 1988, p.10).
Em resumo, a definição formal de “desenvolvimento sustentável” pressupõe o crescimento para todos e recomenda a redução do ritmo de exploração da natureza, de forma a legar recursos para as gerações futuras; para tanto, seriam indispensáveis mudanças na estrutura de produção e consumo, invertendo o quadro de degradação ambiental e miséria social a partir de suas causas.
O Relatório Brundtland transmitiu a ideia de que a pobreza provoca a degradação ambiental, apontando o “desenvolvimento sustentável” como solução tecnocrática para ambas, relegando-se a questão da redistribuição de riqueza e renda a um segundo plano. Partindo-se do pressuposto que a pobreza é a causa da degradação ambiental, seria coerente afirmar-se que o desaparecimento da pobreza e a melhoria do ambiente são eventos compatíveis.
Contudo, para Martínez Alier, Tsuru, Hueting e Naredo, a tese do crescimento econômico pode ser contraproducente; sua resposta para a questão da redução da pobreza se centra no processo de redistribuição de renda. Consideram que o crescimento econômico implica num maior esgotamento de recursos e em mais contaminação para o meio ambiente.
(O texto acima foi extraído e modificado de: JATOBÁ, Sérgio Ulisses Silva. Urbanização, meio ambiente e vulnerabilidade social. IPEA – Boletim regional, urbano e ambiental n. 05, jun. 2011.)

Cortez assim define desenvolvimento sustentável.
“Compreendemos desenvolvimento sustentável como sendo socialmente justo, economicamente inclusivo e ambientalmente responsável. Se não for assim não é sustentável. Aliás, também não é desenvolvimento. É apenas um processo exploratório, irresponsável e ganancioso, que atende a uma minoria poderosa, rica e politicamente influente.”

QUESTÕES
1. Pesquise em sites da internet e estabeleça a distinção entre PARQUES NACIONAIS, RESERVAS NATURAIS e RESERVAS EXTRATIVISTAS. 
Parques nacionais são áreas destinadas à proteção e conservação ambiental, ou seja, da fauna, flora e outros recursos naturais (rios, lagos, formações rochosas, etc.). São áreas que podem ser usadas para visitação turística (turismo ecológico), sem que haja qualquer prejuízo aos ecossistemas. Servem também para a realização de pesquisas científicas e projetos educacionais. Estes parques, que podem ser municipais, estaduais ou federais, são protegidos por lei. Como são de domínio público, as visitas são permitidas, porém controladas. Assim como os parques nacionais, existem também os parques estaduais e municipais, mas todos eles são de domínio público e criados por lei.
É importante frisar que não são permitidas a implantação de estruturas urbanas e atividades econômicas, mesmo que sejam sustentáveis, dentro dos parques nacionais.
Reservas naturais são áreas de importância para a preservação da vida selvagem, flora ou características geológicas e outras de interesse, as quais devem receber proteção para garantir a sua conservação. As reservas naturais são classificadas em diferentes categorias conforme a natureza que se quer proteger (fauna, flora, matas ciliares, elementos geológicos, como, por exemplo cavernas) e recebem diferentes denominações (APA – Área de Proteção Ambiental; Refúgio da Vida Silvestre; Estação Ecológica; Monumento Natural). As reservas podem ser designadas por instituições governamentais em alguns países (como o ICMBio no Brasil), ou por particulares donos de terras, organizações sem fins lucrativos e instituições de pesquisa, nacionais ou estrangeiras.
Reservas extrativistas são áreas destinadas à proteção dos meios de vida e cultura da comunidade tradicional ali residente e ao uso sustentável dos recursos. A posse da terra é pública com concessão real de uso para a comunidade.
2. Para países como o Brasil, quais os problemas e conflitos gerados a partir da implantação do modelo conservacionista americano?
O modelo americano de áreas protegidas parte do pressuposto de que o homem é inimigo da natureza e, portanto, para proteger a natureza é necessário afastar as pessoas. Entretanto, no Brasil, em muitas áreas que foram transformadas em parques já existia a presença humana, seja de indígenas, seja de lavradores ou comunidades extrativistas que as ocupavam. Com a expulsão dessas populações, em grande parte elas migraram para as periferias das cidades e ali passaram a morar em áreas de ocupação informal, aumentando a miséria urbana. Muitos conflitos ainda continuam ocorrendo nas áreas protegidas, com práticas clandestinas de exploração de extração de madeira, caça, garimpos ilegais, desmatamentos e incêndios florestais.
3. Distinga os enfoques do desenvolvimento sustentável com crescimento econômico e do desenvolvimento sustentável com justiça social.
O modelo do desenvolvimento sustentável com crescimento econômico pressupõe que a miséria é fruto do atraso econômico e que através de mudanças na estrutura de produção e consumo o crescimento econômico beneficia a todos, inclusive o meio ambiente.
O modelo do desenvolvimento sustentável com justiça social entende que a sustentabilidade só pode ser atingida se o crescimento econômico for acompanhado por medidas inclusivas das populações marginalizadas, distribuindo de maneira mais justa as riquezas geradas.
Portanto, os dois modelos têm preocupações ambientais, mas com focos distintos: o primeiro modelo foca a estrutura de produção e consumo; o segundo modelo foca a distribuição mais justa das riquezas.


GABARITO DA ATIVIDADE AVALIATIVA 4 - 2/2019


Texto-base: Dinâmica populacional, urbanização e meio ambiente [livro eletrônico] : [pesquisa/texto John Sydenstricker-Neto, Harley Silva e Roberto Luís Monte-Mór] . -- Brasília : UNFPA-Fundo de População das Nações Unidas, 2015.

1.    Defina: taxa de natalidade, taxa de mortalidade, crescimento demográfico, transição demográfica.

- Taxa de natalidade: representa a relação entre o número de nascimentos e de habitantes de um determinado local. O cálculo é feito a cada mil habitantes, e o resultado é dado em permilagem (número por mil).

 
- Taxa de mortalidade: representa o número de óbitos ocorridos ao longo de um ano. Esse indicador é calculado a cada mil habitantes e reflete a relação entre o número de óbitos anuais e de habitantes de um determinado local. O resultado obtido por meio do cálculo é dado também em permilagem.


- Crescimento demográfico ou crescimento populacional é a mudança positiva (aumento) do número de indivíduos de uma população. A taxa de crescimento demográfico é a variação do número de pessoas num determinado espaço de tempo.

Taxa de crescimento demográfico = (Nf - Ni) / t, onde
Ni = número de indivíduos no início do período considerado
Nf = número de indivíduos no final do período considerado
t = duração do período considerado.

2.    Explique detalhadamente os regimes demográficos tradicional, de transição (1ª e 2ª fase) e moderno estabilizado.


No regime demográfico tradicional, durante uma longa fase da história, a natalidade e a mortalidade mantiveram-se elevadas e próximas, caracterizando um crescimento populacional lento. (Guerras, epidemias e fome dizimavam comunidades inteiras.)

A 1ª fase de transição demográfica é marcada pela aceleração crescimento da população, favorecido pela queda da mortalidade já que as taxas de natalidade, ainda, permaneceram algum tempo elevadas. (A Revolução Industrial, o processo de urbanização e de modernização da sociedade foram responsáveis por um crescimento populacional acelerado. Conquistas sanitárias e médicas tiveram impactos diretos na saúde pública e, consequentemente, na queda das taxas de mortalidade.)

A 2ª fase de transição demográfica é marcada pela diminuição da taxa de natalidade mais acentuada que a de mortalidade e desacelerando o ritmo de crescimento da população. (Diminuição das taxas de fecundidade, ou seja, o número médio de filhos por mulher em idade de procriar, entre 15 a 49 anos, provocou a queda da taxa de natalidade.)

No regime demográfico moderno a taxa de fecundidade diminui, estabiliza-se a taxa de mortalidade em nível baixo e o crescimento demográfico mantém-se em um nível moderado. (Demarca o desenvolvimento urbano, a difusão de métodos contraceptivos e a queda das taxas de natalidade, que se relacionam, sobretudo, à inclusão da mulher no mercado de trabalho.)

3.    Explique por que o Brasil, a partir de 1970, experimentou uma acentuada transição demográfica.
A partir da década de 70, o processo de urbanização foi intenso, houve uma mudança muito grande no padrão familiar, com família menos numerosas, difundindo-se os métodos contraceptivos. Residindo nas cidades, as pessoas passaram a ter maior acesso aos serviços de saúde, fazendo diminuir a taxa de mortalidade, especialmente a mortalidade infantil. A vida urbana proporciona maiores oportunidades de sobrevivência e bem-estar, e as pessoas passaram a ter maior expectativa de vida.

4.    Quais as consequências, para a arquitetura e o urbanismo do regime demográfico estabilizado?
No regime demográfico estabilizado a arquitetura e o urbanismo têm melhores condições de cumprir o seu papel na melhoria das condições de vida, integradas à uma boa qualidade ambiental e um planejamento urbano eficiente.

5.    Comente, na perspectiva do autor: “Assim, longe de ser vista apenas como problema, a cidade pode ser vista como alternativa e lócus de oportunidades.”
Na cidade muitos problemas se concentram e suas interações provocam o acirramento das questões sociais, econômicas e ambientais. Entretanto, a cidade também oferece oportunidades de melhoria das condições de vida e, neste sentido, ela exerce grande atrativo às pessoas. Assim, cabe-nos reconstruir aquilo que a falta de planejamento e controle permitiram destruir e buscar novas formas de urbanização que proporcionem o equilíbrio entre a sociedade, a natureza e os resultados econômicos.